Construção
progressiva da teia narrativa.
Personagens,
espaço, tempo e acção nascem do nada e vão lentamente tomando forma,
pormenor a pormenor, traço a traço.
| 1º capítulo |
Intrusão e operações de instalação de um destacamento militar. 1º
passo: Reconhecimento do local (uma casa), pelo exterior, por dois
soldados rasos «deux
troufions, tous deux très blonds, l’un dégingandé et maigre,
l’autre carré, aux mains de carri 2º
passo: Mais tarde, um aspirante e um dos dois soldados rasos dirigem-se ao
dono (ou dona) da casa: «Ils me parlèrent dans ce qu’ils croyaient être du français».
Militares e morador/a não falam a
mesma língua. Sem
que nada ainda nos situe geograficamente nem no contexto, deduz-se
tratar-se de um espaço onde se fala francês. O insólito da situação
remete para um desequilíbrio de forças: «Je ne
comprenais pas un mot ... Pourtant,
je leur montrai les chambres libres» 3º passo: Na manhã seguinte, um enorme torpedo militar penetra no jardim. O motorista e um soldado «un jeune soldat mince, blond et souriant» transportam bagagem para o maior dos quartos escolhidos «ils montèrent le tout dans la chambre la plus vaste». 4º
passo: Algumas horas mais tarde, chegam três cavaleiros «trois
cavaliers apparurent». Um deles desmonta e vai observar o edifício
de pedra anexo à casa; sem qualquer constrangimento, acomodam homens e
cavalos no celeiro. 5º
passo: Na manhã do terceiro dia, volta o torpedo. O jovem soldado
sorridente «le jeune homme souriant» transporta
uma arca enorme para o quarto maior e a sua própria bagagem para o quarto
vizinho «son sac qu’il déposa dans la
chambre voisine». E pede lençóis à sobrinha do/a narrador/a
«s’adressant à ma nièce… demanda des
draps» |
| 2º capítulo |
Cena única, de
poucos minutos. No entanto, a atitude passiva e o silêncio dos anfitriões
tornaram-nos difíceis e intermináveis. Entre cada
frase do oficial, o narrador descreve o que vê, constituindo estas descrições
pausas narrativas que dão a sensação
de arrastar a acção. O oficial reconhece e admira o patriotismo dos seus anfitriões «J'éprouve une grande estime pour les personnes qui aiment leur patrie». |
| 3º capítulo |
Tio/sobrinha tomam o pequeno-almoço «quand nous prenions notre petit-déjeuner» e fica claro que não partilham o quotidiano familiar com ele. A saudação do oficial não encontra qualquer eco. A preencher o silêncio dos anfitriões, o narrador observa e descreve o espaço, o oficial, mais alguns traços físicos e os seus movimentos. Mais uma pausa narrativa a dilatar o tempo e a tornar sensível o desconforto do silêncio. O recurso às analepses «D’un accord tacite, nous avions décidé, ma nièce et moi, de ne rien changer à notre vie» e as referências do oficial ao seu passado acentuam a lentidão da acção. As prolepses «nous ne fermâmes jamais la porte à clef»…«jusqu’au dernier moment, il ne s’y assit jamais. Nous ne le lui offrîmes pas et il ne fit rien, jamais,…» reforçam a ideia de que nunca a comunicação se estabelecerá entre as partes e de que não haverá nunca qualquer hipótese de aproximação. O silêncio
é algo constrangedor para o narrador. Invadem-no sentimentos ambíguos,
contraditórios «Je ne suis pas sûr que les
raisons … fussent très claires ni très pures ...il se peut qu’un
autre sentiment se mêlât … je ne puis sans souffrir offenser un homme,
fût-il mon ennemi.» Mais de um mês depois, brusca alteração da rotina «les choses changèrent brusquement un soir». O oficial chega muito depois da hora habitual «L’heure était largement passée de sa venue» e já ocupa o pensamento do narrador que, aborrecido consigo próprio, reconhece não ficar totalmente indiferente «Malgré moi, j’imaginais l’officier…l’aspect saupoudré…je m’agaçais de reconnaître qu’il occupait ma pensée». O oficial apresenta-se pela primeira vez vestido à civil. Em vez do militar, surge um homem elegante e de bom gosto. Encontra o mesmo silêncio de sempre. O narrador, meio estendido na sua enorme poltrona confortável «Moi, je fumais, à demi allongé dans mon grand fauteuil douillet» preenche e alonga esse segmento de tempo com a descrição do que vê e ouve. O oficial começa a enumerar contrastes entre a França e a Alemanha – de um lado, a espiritualidade «Ici c’est la pensée subtile et poétique» e do outro, a força «Chez moi, on pense à un taureau trapu et puissant». Fala da sua admiração pela França e acredita na união promissora entre os dois países «il sortira de très grandes choses pour l’Allemagne et pour la France». O contexto histórico e a ideologia subjacente ficam claramente definidos com a referência à República de Weimar e a Aristide Briand «il croyait dans la République de Weimar et dans Briand». A sensibilidade e os sentimentos do oficial impressionam o narrador ao ponto deste duvidar da justeza do pacto de silêncio «C’est peut-être inhumain de lui refuser l’obole d’un seul mot.» mas, diante da reacção de indignação da sobrinha, sente-se algo envergonhado «Je me sentis presque rougir.» O oficial é sensível à atitude de resistência/patriotismo dos seus anfitriões. |
| 4º capítulo |
Num interminável
monólogo
(que continuará até ao fim), o oficial exalta a literatura da
França e enumera alguns dos seus grandes nomes «Balzac,
Barrès, Baudelaire…Pascal, Stendhal, Voltaire…», aos
quais contrapõe os grandes compositores alemães. França e
Alemanha, dois países feitos não para se combaterem «Et
nous nous sommes fait la guerre!», mas sim para se completarem
«Nous ne nous battrons plus: nous nous
marierons!» Sempre que fala
da França, é para a jovem que olha. A resistência silenciosa, mas digna
e tenaz, oferecida pela França à ocupação alemã é personificada pela
jovem e o seu tio «un vieil homme digne et
une demoiselle silencieuse» «Il faudra vaincre ce silence. Il faudra
vaincre le silence de la France» |
| 5º capítulo | Numa dessas noites, ouve-se o som do harmónio. Através de mais analepses, o narrador preenche mais um segmento do passado: a jovem abandonara bruscamente a música desde o início da guerra e a partitura do trecho que estudava ficara aberta nessa página «On jouait ces VIII Prélude et Fugue que travaillait ma nièce avant la débâcle ... Le cahier était resté ouvert à cette page». Através
da caracterização indirecta ou
directa,
são-nos reveladas as várias facetas do oficial, o seu amor pelas artes, os seus sentimentos, a sua
convicção de que conquistará o coração da França pela doçura e
sinceridade «La sincérité toujours surmonte
les obstacles». |
| 6º capítulo | Repetição da cena ao longo de todo o inverno. Através do seu monólogo cujo tema é, invariavelmente, a admiração pela França, o oficial evoca o seu passado, as suas origens. Com o episódio da sua ex-noiva, que funciona como uma parábola, o oficial descobriu a crueldade das raparigas alemãs «j'étais effrayé pour toujours à l'égard des jeunes filles allemandes» e estabelece um paralelo com a dos governantes «Ainsi sont aussi chez nous les hommes politiques». Deitada no meio das flores e feliz com tanta beleza, presente de Deus, a jovem castiga um mosquito por um outro a ter picado: não o mata simplesmente, mas arranca-lhe cruelmente uma a uma as patas. O leitor não pode deixar de pensar na Juventude hitleriana e nos métodos e programas utilizados para inculcar as ideias nazis de depuração da raça, disciplina e intransigência nas jovens alemãs, nomeadamente o programa «Fé e Beleza». O oficial exalta a ideologia dos seus compatriotas e do Führer «mes amis et notre Führer ont les plus grandes et nobles idées» embora os saiba cruéis e implacáveis «mais je sais aussi qu'ils arracheraient aux moustiques les pattes l'une après l'autre». Referência ao Partido único (Partido Nazi), ao governo totalitário e à natureza violenta dos Alemães que vem à superfície quando detêm o poder «cela remonte toujours ... les hommes du même Parti, quand ils sont les maîtres». Utopista, está convencido de que a França, através do amor, saberá curá-los dessa violência «La France les guérira ... leur aprendra à être des hommes vraiment grands et purs» Mas, a condição será o amor partilhado «Mais pour cela il faut l'amour ... un amour partagé». Tal como a Alemanha está a asfixiar a França, o silêncio,
implacável, satura a sala como um gás pesado e irrespirável «cet
implacable silence ... il laissait ce silence envahir la pièce ... comme un
gaz pesant et irrespirable». O olhar do oficial e o episódio do bosque causam alguma perturbação
à sobrinha do narrador, cujos gestos traem os seus sentimentos, os dedos
tremem, parte o fio com que estava a coser «je sentais l'âme de ma nièce
s'agiter dans cette prison qu'elle avait elle-même construite ... léger
tremblement des doigts ... le fil qu'elle venait de casser». |
| 7º capítulo | A rotina continua. Certa noite, o oficial lê um excerto de «Macbeth». Surpreendido, o narrador chega a pensar que o oficial está a traçar o perfil de Hitler «Je me demandais avec stupeur s'il pensait au même tyran que moi». Mas é o almirante francês que ele critica duramente «N'est-ce pas là ce qui doit troubler les nuits de votre Amiral? ... Un chef qui n'a pas l'amour des siens est un bien misérable mannequin». Crítica à persuasão, não pelo amor, mas pela violência e clima de terror «ceux qu'il commande obéissent à la crainte et non plus à l'amour», bem como à atitude desprezível de colaboracionismo. Para ele, o dia do entendimento entre os dois países aproxima-se. Anuncia que se desloca a Paris onde vão decorrer as negociações «aux négociations que nous menons avec vos hommes politiques, pour préparer la merveilleuse union». Acredita cegamente que, graças à Alemanha, a França se reerguerá e recuperá a sua grandeza e liberdade «Jamais personne n'aura profité de sa bonne action, autant que fera l'Allemagne en rendant sa grandeur à la France et sa liberté!» |
| 8º capítulo |
O narrador encontra o
oficial no Kommandantur. Este está diferente e o narrador sente que algo
de grave se está a passar. Uma noite, a última, o oficial bate à porta como de costume mas, pela primeira vez, fica à espera que lhe seja dada a permissão de entrar e bate novamente. Três pancadas primeiro «trois coups pleins et lents»; depois, «deux nouveaux coups ... deux seulement, deux coups faibles et rapides». Pela primeira vez, o anfitrião responde «Entrez, monsieur». Voltou ao seu estatuto de oficial e está fardado e grave «plus que jamais en uniforme». Não passa da porta e anuncia que tudo terminou «Tout ce que j'ai dit ces six mois...il faut l'oublier». Com a sua ida a Paris, descobriu a verdadeira face e intenções da Alemanha. A Alemanha vai avançar e aniquilar impiedosamente a França «... nous guérirons l'Europe de cette peste! Nous la purgerons de ce poison!» Está dilacerado «Ils éteindront la flamme ... L'Europe ne sera plus éclairée par cette lumière!». Indirectamente, o narrador
leva o leitor a pensar no holocausto, no
extermínio planeado e metódico «ses
yeux s'ouvrirent très grands, - comme sur le spectacle de quelque
abominable meurtre ... ils feront ce qu'ils disent ... avec méthode et
persévérance! Je connais ces diables acharnés!» A aniquilação da França passa pela erradicação da sua cultura, a expurgação de todas as ideologias que possam contaminar a alemã. Exceptuando os livros referentes aos sectores tecnológicos em que a França era avançada e, portanto, útil à Alemanha, todas as publicações deveriam ser destruídas «Aucun livre français ne peut plus passer - sauf les publications techniques, manuels de dioptrique ou formulaires e cémentation ... Mais auncun de culture générale...» Assim, muitos livros foram queimados. Pelo fogo, a chama da cultura será apagada «Ils éteindront la flamme tout à fait ... L'Europe ne sera plus éclairée par cette lumière!» Apesar da revolta e dúvidas quanto aos limites do dever «Notre devoir! Heureux celui qui trouve avec une aussi simple certitude la route de son devoir! ... O Dieu! Montrez-moi où est MON devoir!», o soldado coloca a sua lealdade acima de tudo e vence o homem «Ainsi il se soumet ... Même cet homme-là». Através de
metáforas
e hipérboles,
o narrador descreve o dilema interior do oficial «Son
regard passa sur ma tête, volant et se cognant aux coins de la pièce
comme un oiseau de nuit égaré». O caminho que lhe
indicam «Or, cette route, on ne la voit
pas s'élever vers les hauteurs lumineuses des cimes, on la voit descendre
vers une vallée sinistre, s'enfoncer dans les ténèbres fétides d'une
lugubre forêt!» é o do inferno «Pour
l'enfer». A sobrinha do narrador, num crescendo de angústia, revela claramente o seu drama íntimo «Il va partir». Pela primeira vez, olha o oficial nos olhos «pour la première fois ... elle offrit à l'officier le regard de ses yeux pâles» e atinge-se o clímax da narrativa com a sua única palavra dirigida ao oficial «Adieu». O oficial fica apaziguado «il se redressa et son visage et tout son corps semblèrent s'assoupir comme après un bain reposant» como se, no seu íntimo, o seu sonho de união se tenha tornado possível: a Bela compreendeu o Monstro e está pronta a aceitá-lo. A completar o perfil do
oficial, últimos traços físicos: enorme semelhança com um actor
francês famoso «je pris garde à sa surprenante avec
l'acteur Louis Jouvet». Nesta última cena, não só a força dramática atinge o ponto culminante, como está contido todo o significado profundo da novela. Tal como a superfície tranquila do mar esconde a agitação da vida submarina «sous la calme surface des eaux, la mêlée des bêtes dans la mer», também o silêncio camuflou o dilema crescente dos sentimentos contraditórios inconfessáveis com que se debatiam quer o oficial, quer a jovem rapariga, quer ainda o narrador «je sentais bien grouiller la vie sous-marine des sentiments cachés, des désirs et des pensées qui se nient et qui luttent». O silêncio transforma-se num obstáculo intransponível, traduzindo a total impossibilidade de qualquer aproximação, fraternidade, a comunicação sequer, como também a resistência silenciosa mas activa à invasão alemã. Assim como
tinha tomado gradualmente forma nos primeiro e segundo capítulos «Il
(fut précédé) – silhouette – Officier – Werner von Ebrennac –
Allemand – enneni», a
personagem esvazia-se e sai de cena «l’officier
ennemi – Werner von Ebrennac – Ebrennac – hôte – Werner – Il (était
parti)» Fica a imagem
sorridente do homem e não do soldado «la
dernière image que j’eus de lui fut une image souriante».
Voltam a tranquilidade e o silêncio «Elle me servit en silence. Nous bûmes en silence», um silêncio diferente, carregado de sentido. Estamos
perante uma narrativa
aberta,
suspensa ,
permitindo ao leitor imaginar a sua continuação ou um final. |